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2018: o que podemos fazer por nós enquanto cidadãos, comunidades, regiões, país?

Terça-feira, 02.01.18

 

 

Começo por esclarecer que não estou a dizer o que podemos fazer pelo país político, frase primeiro ouvida a Kennedy (what you can do for your country) e posteriormente adoptada por outros políticos :) É a frase que coloca jovens militares em guerras imorais destruindo gerações, é a frase que inspira ao sacrifício pessoal por interesses obscuros, é a frase que desresponsabiliza governos e políticos de fazerem o que deveriam pelos cidadãos. Não sei se era essa a perspectiva de Kennedy que nem foi um Presidente bélico, mas é assim que é interpretada e utilizada pelos políticos. 

A minha sugestão vai precisamente no sentido contrário: tendo nós já verificado (e ando a dizê-lo há 10 anos) que os sucessivos governos desde o governo socrático, passando pelo governo-troika, e este socialista actual, negligenciaram o seu dever e responsabilidade mais básicos, é tempo de tratarmos uns dos outros como cidadãos, comunidades, regiões, país.

A minha sugestão é a da participação cívica. De certo modo, já iniciada como um movimento ainda não organizado. Lembremos o 15 de Setembro, petições várias, encontros nos centros de algumas cidades depois dos incêndios e, mais recentemente, a iniciativa da Associação Tranaparência e Integridade sobre a proposta de lei do financiamento dos partidos.

 

Como cidadãos, podemos reclamar um governo responsável que finalmente coloque os cidadãos, as comunidades, as regiões e o país à frente de interesses oportunistas, de rampa de lançamento para políticos em Bruxelas (Sampaio lançou Barroso, Sócrates lançou Constâncio, Costa lançou Centeno, as nossas stars na Europa :) Barroso, depois da Cimeira das Lajes que anunciou a guerra ilegal do Iraque, e 20 anos à frente da CE, foi terminar a sua carreira no Goldman Sachs. Constâncio, depois de vários anos à frente do Banco de Portugal em que situou o défice de Santana Lopes em 6,83 e falhou clamorosamente na supervisão bancária, foi catapultado para o BCE. Centeno foi premiado com a presidência do Eurogrupo por ter ido além das regras europeias pelo défice e pela dívida, como mais um "bom aluno" de Bruxelas, cativando as vidas de cidadãos, comunidades, regiões e país.

As nossas stars europeias não nos podem animar, entusiasmar ou sequer inspirar. Trata-se de uma vaidade humana que nos ilude, tal como a frase de Kennedy interpretada pelos políticos. A cultura do orgulho nacional é obsoleta, já não move ninguém que goste de si próprio, dos outros e da vida. Porquê?

Porque o orgulho, que incha os políticos e outras pessoas pueris ou imaturas, é apenas o reverso da vergonha. Apelar ao orgulho de si próprio, de outros, de um grupo, de uma equipa, ou de um país, é apenas compensar o sentimento mais destrutivo de todos: a vergonha.

 

Quando conseguimos terminar uma tarefa difícil, ou encestar no basket, ou enfrentar alguém que tinha um ascendente sobre nós, ou tomar uma decisão seguindo a nossa consciência, sentimo-nos bem, felizes, confortados, tranquilos.

Quando alguém de quem gostamos consegue aquilo que deseja, ultrapassar obstáculos, organizar a sua vida de forma autónoma, encontrar a estabilidade afectiva ou ver o seu trabalho reconhecido, sentimo-nos felizes por ele ou com ele.

E o mesmo para pais e filhos, onde ouço muitas vezes a palavra orgulho de ti em vez de felicidade por ou com. Os pais podem não se aperceber, mas seria muito mais saudável dizer a um filho: sinto-me feliz por ti ou sinto-me feliz contigo, do que sinto-me orgulhoso de ti.

 

2018 traz-nos grandes desafios:

- não podendo confiar neste governo em áreas fundamentais como a prevenção, a segurança, a protecção civil, a justiça, a agricultura, o ambiente, o que podemos fazer para prevenir situações de risco, na floresta e nas estradas, em termos ambientais, na utilização da água, etc.?

- mas não esquecer a saúde e o SNS, e a educação, áreas essenciais para os cidadãos.

 

O que nos pode ajudar?

- uma conjuntura política e económica favorável: isto está fora do nosso controle. E é aqui que Centeno no Eurogrupo vai complicar ainda mais as coisas, ao implicar um reforço do papel de "bom aluno", um exemplo para os outros países da zona euro.

- a economia vai ser condicionada de forma ainda mais apertada com Centeno no Eurogrupo e o PS a governar. Também aqui os cidadãos podem ter uma voz organizada de forma a defender o seu espaço-tempo e a resgatar o seu futuro.

- as eleições directas no PSD: a escolha do próximo presidente do PSD pode não parecer fundamental para todos nós, mas é. Trata-se muito provavelmente do próximo PM. Além disso, a AR precisa de um reequilíbrio: o PS inchou de orgulho com o défice, a dívida, os números do crescimento, o rating, as sondagens, e Centeno no Eurogrupo. E já delira com a maioria absoluta. É por isso que é importante ajudar a clarificar o que significa para nós a escolha por um ou por outro dos candidatos. Daqui a 2 dias temos o primeiro debate. Estejamos atentos, pois.

 

Como manter a nossa capacidade de observação e análise, e autonomia de pensamento?

- não nos deixarmos influenciar pelos media, jornalistas, comentadores, comentadores-deputados e políticos em geral. Um dos comentários mais estranhos e perversos que eu já ouvi na minha vida foi, na sequência dos incêndios e das tragédias, e sobre a reacção dos cidadãos em relação ao governo, alguém dizer num canal televisivo que os portugueses são bipolares, isto é, variam entre a euforia e a depressão. A verdade é que a depressão foi a reacção normal face às tragédias. Quem não sentiu uma tristeza e revolta com o que aconteceu é que revela incapacidade de empatia com o sofrimento de outros.

- não nos deixarmos distrair com manobras de diversão. O PS é profissional nessa arte: anúncios espectaculares, sucessos nisto e naquilo, o país está na moda, ou então, as rasteiras a adversários políticos, ou palavras que lhes querem colar (ex: "trapalhadas" no tempo do governo de Santana Lopes), ou armadilhas em que os querem colocar. Sempre que se sentirem acossados ou a perder o pé, vão inventar situações comprometedoras. E todos sabemos como a informação pode ser manipulada e levar a equívocos graves.

 

Estou a preparar uma análise dos perfis dos candidatos à presidência do PSD, só me falta juntar o puzzle. Nos pormenores em que ninguém repara é que está a chave da solução que será melhor para todos nós. Só vou adiantar isto: é verdade que a personalidade os distingue e que essa distinção é mesmo importante. É verdade que há perfis que se adaptam aos desafios do séc. XXI e há perfis que não. É verdade que hoje já não se pode governar sozinho e controlar tudo, mas ter uma equipa coesa, organizada, competente, o que exige uma capacidade de interacção social e de inteligência emocional fora do comum. Além disso, hoje é impensável um governante não estar receptivo à participação cívica. E mais do que estar receptivo, apelar à participação cívica e ajudar a mobilizá-la.

Se assistirem ao primeiro debate tendo esta perspectiva em consideração, verão mais claramente quem escolheriam para potencial próximo PM. 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:39

Com o coração nas mãos

Quinta-feira, 26.10.17

 

 

Com o coração nas mãos é como vamos todos passar estes próximos meses de um Outono com seca severa e sobretudo, sim sobretudo, a partir de Março se este governo ainda estiver no poder nessa altura.

Precisamos de estar atentos e alertas, pois não podemos contar com a competência deste governo para evitar mais tragédias nacionais, como as que vivemos este ano. Pedrógão já nos tinha deixado incrédulos e deprimidos. Mal sabíamos que ainda teríamos de ver acontecer o 15 de Outubro...

A tristeza deu lugar à revolta, não podemos deixar esquecer o que aconteceu. Saber as causas dos incêndios, tudo o que nos esconderam e que teria sido fundamental para evitar as mortes e os ferimentos de tantos, e no maior desamparo possível.

 

Como já imaginava, e não é por acaso que já não confio em comissões de investigação disto e daquilo, o relatório que foi apresentado 4 meses depois de Pedrógão e 3 dias antes de 15 de Outubro como se se tratasse do Santo Graal, tem erros e omissões graves.

Não apemas não protegem os cidadãos como não os respeitam. Não apenas omitem a verdade, como nos mentem. Mas nós não deixaremos esquecer Pedrógão. Não deixaremos esquecer o 15 de Outubro.

Não deixaremos que nos tentem apagar da memória o que aconteceu às pessoas, às suas vidas. Não nos deixaremos distrair por casos secundários de juízes culturalmente atrasados no tempo, por relatórios com informação não fiável, por debates televisivos com especialistas de duvidosa formação e isenção, por comentadores com uma agenda oculta.

E além de não esquecermos ou deixarmos esquecer Pedrógão e o 15 de Outubro, colaboraremos para evitar futuras tragédias. 

 

Para já, o CDS marcou uma posição na AR por todos nós os que gostaríamos de censurar este governo. Com o PSD ao seu lado. Já estão clarificadas as posições na AR, bem definidas e demarcadas. A partir daqui já todos sabemos quem está com as pessoas abandonadas à sua sorte e ao maior desamparo, e quem segurou este governo porque tem outras prioridades.

A cultura da esquerda que apoia este governo revelou-se como na verdade é: mesquinha e territorial, a trabalhar para o seu eleitorado. No seu pequeno mundo urbano e suburbano, industrial e empresarial, sobretudo do sector público e sindicalizado. Os outros, os que laboriosamente constroem uma vida sem as ajudas estatais, esses não contam para a sua contabilidade orçamental.

A cultura socialista é a mesma dos governos socráticos: o marketing, a arrogância, a vangloriar-se do sucesso económico e financeiro na campanha autárquica, já depois de Pedrógão. Inchados na sua cegueira depois de umas Autárquicas que apenas indicaram a confiança em candidatos a nível local. Um PM que só demitiu a ministra e o secretário de Estado depois do discurso presidencial. Um PM que só admitiu ter falhado e só pediu desculpa por essas falhas graves depois do discurso presidencial.

 

Não confiando na investigação oficial e nos relatórios de comissões chamadas independentes, o que podemos fazer na prevenção?

Estar alertas e atentos, coligir factos, cruzar dados, cada um na sua especialidade. Registar tudo. Utilizar os neurónios. Informar. Comunicar. Partilhar. As causas dos incêndios começarão a surgir em padrões temporais e espaciais, em ligações e intersecções, em coincidências. Identificáveis. 

Participar civicamente nas iniciativas e actividades da freguesia e do concelho. Manterem-se informados, sugerir, colaborar.  

Organizarem-se em grupos, associações, comunidades. No território afectado, colaborar na recuperação e regeneração. No território restante, colaborar na informação sobre riscos e formas de os evitar. Em ambos os casos, partilhar informação sobre pequenas iniciativas que todos podem passar a incluir nas suas rotinas diárias. Há a qualidade da água que pode estar afectada, por exemplo.

Não nos deixemos impressionar ou afectar pelas tentativas oficiais ou outras de nos implicarem na responsabilidade que é deles. Queimadas de agricultores? E os unúmeros fogos que se iniciaram ao fim da tarde e à noite? Proprietários que não limpam a floresta? Para já, o pinhal de Leiria é do Estado, a faixa ao longo das estradas é da EP, e outros exemplos de floresta abandonada. Tudo ardeu, floresta, pasto, árvores de fruto, oliveiras, videiras, casas, fábricas...

E finalmente não deixemos de exigir informação fidedigna e avaliação dos responsáveis.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:05

Autárquicas 2017: equívocos culturais que permanecem na política partidária nacional

Terça-feira, 19.09.17

 

 

 

Depois de ver o país três meses a arder em incêndios criminosos, as tais "ocorrências" de que nos falam na central da protecção civil e que acontecem anualmente, ou seja, um problema de segurança estatisticamente previsível, vem o PS afirmar, arrogantemente, que quer ganhar as Autárquicas.

Esta afirmação revela, pelo menos, dois equívocos culturais que iremos analisar a seguir.

 

 

Equívocos culturais que permanecem na política partidária nacional:

 

1º - As autárquicas reflectem os resultados partidários nacionais.

Este paralelismo foi-se diluindo no tempo e hoje já não é fiável. Reparem que há candidatos que antes tinham sido eleitos por um partido e agora são apoiados por outro. A referência aqui é o trabalho desenvolvido na câmara e não o partido que o apoia. O mesmo para candidatos antes eleitos por um partido que agora se apresentam de forma independente. E ainda para candidatos independentes que se apresentam apoiados por um ou mais partidos.

Os projectos são avaliados. E é por isso que em breve veremos novos rostos, mais jovens e dinâmicos, a gerir autarquias. Como referi no Twitter: "As autárquicas já não servem como referência da implantação partidária nacional. Cada concelho é um caso específico. ... Há bons projectos: desde o CDS à CDU, passando pelo PSD, BE, independentes e PAN. ..."

 

2º - As campanhas autárquicas seguem a lógica das campanhas legislativas.

Estando mais próximo das pessoas, o poder local tem uma lógica própria. É mais fácil influenciar o eleitorado. É por isso que em ano de eleições, vemos obras em tudo o que é estradas municipais, ruas, passeios, jardins e... as inevitáveis rotundas.

Nota-se, no entanto, uma mudança cultural em curso: as pessoas estão mais informadas sobre as decisões que afectam a sua vida diária e o rendimento familiar. E já não se ficam por aqui: já se preocupam com a qualidade de vida da comunidade, a protecção ambiental, uma economia mais equilibrada e sustentável, uma gestão política mais transparente e participada. As pessoas formam associações, reunem-se, debatem. São comunidades vivas a proteger os seus melhores recursos.  

Implicações políticas: se até aqui as campanhas eram clubistas e os grupos partidários se guerreavam mutuamente, esta estratégia já não tem impacto nos eleitores. Se até aqui se faziam promessas em discursos, slogans e outdoors sorridentes, hoje esta modalidade está a dar os últimos dividendos políticos.

 

 

Sendo assim, o PS está completamente equivocado, e não só duplamente equivocado (os equívocos referidos), também por um terceiro equívoco: a gestão política local não é distante e opaca como a nacional, apoia-se na vida da comunidade. Embora valorize a economia e finanças saudáveis (os trunfos actuais do governo), valoriza, acima de tudo, a segurança e a confiança. A segurança e a confiança são fundamentais para uma comunidade e baseiam-se na responsabilidade.

Foi na segurança, na confiança e na responsabilidade, que o PS falhou. Não valorizou os cidadãos o suficiente para assumir a responsabilidade pelas graves falhas na sua protecção (incêndios) e na segurança nacional (Tancos). Não valorizou os cidadãos o suficiente para demitir a ministra e a sua equipa. Não valorizou os cidadãos o suficiente para querer investigar até às últimas consequências o que se passou em Pedrógão, e depois nos concelhos afectados diariamente pela destruição criminosa dos incêndios. Não valorizou os cidadãos o suficiente para lhes dizer a verdade sobre a origem criminosa dos incêndios. E não foi só não lhes dizer a verdade, foi mentir-lhes com a versão oficial "negligência". Não valorizou os cidadãos e o país o suficiente para investigar o que se passou em Tancos. Isto somado revela a natureza descontraída do PS relativamente ao essencial e a sua obsessão pela imagem. Esta é a sua marca registada, a sua cultura de base.

 

Pode acontecer que os resultados das Autárquicas favoreçam o PS e o PSD, afinal são os partidos em que os eleitores se habituaram a votar com mais frequência. Não me parece é que isto reflicta uma tendência nacional.

  

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:24

Porque é que estas Autárquicas são vitais para as populações?

Sexta-feira, 18.08.17

 

 

  

O pior que pode acontecer às populações já aconteceu: sem protecção nem segurança, abandonadas e esquecidas, assim como o território que ocupam.

E não é apenas a segurança, um direito básico que deveria ser garantido pelo Estado, é o próprio governo não lhes dizer a verdade. Isto ficou claro, claríssimo, na 4ª feira à noite. Rewind: programa "Negócios da Semana" da Sic Notícias. Tema: A Economia do Fogo. Interrupçao para ouvir a ministra da administração interna que se tinha dirigido àquela hora à Protecção Civil, insistindo atabalhoadamente na versão "negligência" para encobrir a realidade "crime organizado".

A realidade está à vista de todos e o governo (versão oficial) insiste em escondê-la de todos nós, os cidadãos.

 

Voltemos ao programa e ao tema "A Economia do Fogo". Existe toda uma economia que se alimenta da desgraça das populações: negócios à volta do preço da madeira ardida (paletes, contraplacados, etc.); da aquisição de equipamentos de combate aos incêndios e de pagamento de serviços. Para já, foi o que registei. 

Formas de prevenção: neutralizar estes interesses económicos, fixando o preço da madeira ardida; nacionalizando os meios de combate aos incêndios com aquisição pelo Estado dos equipamentos; envolvendo forças militares especiais; preparando equipas de vigilância.

 

Onde é que entram as câmaras municipais, o poder local, na prevenção de incêndios e na protecção das populações?

Um presidente de câmara que conheça bem a sua população e território, que esteja próximo e receptivo às sugestões dos munícipes e de especialistas, e que coordene com outras câmaras, pode ter um papel fundamental. 

Pode optimizar os recursos da região, e a floresta é um recurso valiosíssimo, não apenas pela madeira, mas muito para além dessa indústria. Uma floresta bem gerida pode ser um recurso ambiental e turístico, uma floresta que se organiza de forma sustentável, numa ocupação do território bem planeada, com espécies seleccionadas e mais adequadas a cada configuração, e espaços amplos de interrupção natural com espécies menos inflamáveis ou outras soluções criativas.

Para decidir sobre um território a este nível, em que se afectam muitos pequenos proprietários, terá de se ouvir as pessoas, saber negociar, e depois preparar os meios financeiros (programas europeus, nacionais, locais, etc.) para negociar cada contrato. Uma sugestão possível é o aluguer do espaço onde se intervém.

 

Já se começa a perceber a importância vital das câmaras municipais, sobretudo para os concelhos do interior esquecido e abandonado. 

Um presidente de câmara com visão das potencialidades da região pode dinamizar a economia, mobilizar meios, atrair novos negócios, e promover uma ocupação do território.

 

Já referi o perfil ideal de um presidente de câmara. Cada um deve escolher cuidadosamente e pensando nestes factores que são vitais para a sua região: segurança, justiça, economia.

As dimensões valorizadas "jovem" e "independente" surgem relacionadas com "preparação técnica" e "cultura de colaboração". Claro está que podemos encontrar preparação técnica e cultura da colaboração em candidatos partidários.

A dimensão "ser residente na região", conhecer bem o território e a sua população, não é negociável.

Também não negociável a preferência de "candidatos ao primeiro e/ou segundo mandato, e excepcionalmente ao terceiro". 

Sugere-se evitar "candidatos que revelem um discurso agressivo e competitivo", uma cultura partidária corporativa.

Assim como "candidatos que exerçam a função de deputado".

E, como é desnecessário referir, "candidatos com irregularidades financeiras no percurso".

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

O dossier Panamá

Segunda-feira, 04.04.16

 

Ora aqui está um belíssimo título para um livro ou um filme. Um trabalho de partilha de informação de jornalistas de investigação. Uma de muitas tentativas de divulgação do que se passa nos bastidores das finanças e das negociatas de quem não se quer sujeitar às regras da convivência justa, equilibrada e civilizada do comum dos mortais.


E quem encontramos lá? Algumas personagens não nos surpreendem, já contávamos com isso. Mas o primeiro-ministro da Islândia? De um país que acabou de atravessar uma das crises financeiras mais terríveis? E eu que pensava que as mulheres islandesas tinham tomado conta do poder para não deixar que cenas destas voltassem a acontecer...


O Messi? Admirado por tantos jovens de todo o mundo? Um símbolo do desporto? E logo quando o futebol ainda tem a mancha da corrupção agarrada à FIFA como pastilha elástica?


O mais interessante é constatar, quando se fala de offshores, que a cultura vigente ainda é aceitar a sua existência com naturalidade, como se fosse normal fugir ao fisco só porque se tem muito dinheiro. Tudo ao contrário, não acham? Mais aceitável seria perdoar uma pequena fuga ao fisco de quem tem pouco dinheiro... Só que para esses é a penhora.


Isto dos offshores já é uma grande rede de interesses, todos a retirar a sua parcela, bancos, empresas, advogados... A cultura vigente está tão enraizada que até gestores políticos propõem o perdão fiscal parcial e ainda se sentem gratos por esses montantes regressarem à legalidade.


E haverá ainda o argumento de que a finança poderá colapsar se se sujeitar às regras democráticas do equilíbrio de uma sociedade civilizada. De onde se poderá concluir que esta finança actual se baseia no desequilíbrio, na ausência de regras democráticas, e só funciona fora da lei.


E há outra questão muito actual que aqui surge como prioritária: a segurança. Os offshores são um óptimo esconderijo para financiar o terrorismo. 


A mudança necessária é cultural, mas tem de se começar por um lado, pelo trabalho jornalístico. 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:19

A verdadeira ironia

Quarta-feira, 14.01.15

 

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.


A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.

E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.


Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.

O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.


A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.

Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.


Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.


A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.

Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).

E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.

Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.

Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência


A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.

A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.

 

 

Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:23








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